Comentários despretensiosos de filmes em cartaz:
Sob O Domínio Do Mal (The Manchurian Candidate, de Jonathan Demme - EUA/2004)
Nº1: não vi a versão de 1962, by John Frankenheimer, que se apega mais ao surrealismo e ao medo do comunismo nos anos 60 (é o que dizem). Mas este remake, não é difícil notar, tem algo a acrescentar. Tanto quanto o original, no passado (Ok, não posso concluir isso até vê-lo. Farei o mais breve possível). Além do mais, mesmo se o filme fosse uma bomba, o pôster (teaser ou não, pouco importa) já entraria para a história.
Neste aqui, o pouco que sobra de surreal serve, mais do que qualquer coisa, de metáfora. Apropriadíssima para a nossa época, do primeiro momento ao último. A última ação do personagem Raymond Shaw (Liev Schreiber), no filme, comprova essa tese. Mas se, propositalmente, o suspense é que domina a trama política (afinal, o filme quer ser mais do que uma crítica ao regime politico americano atual), Demme conduz tudo com a perfeição que fez de O Silêncio Dos Inocentes um clássico. Técnicamente impecável, e com um elenco barulhento que Demme sabe domar como poucos. Seus ângulos de câmera são precisos (close na cara do pessoal o tempo todo, elenco olhando para a lente da câmera o tempo todo, seduzindo o espectador, sempre à favor da trama, característica de Demme), e o elenco inspirado sabe sempre a hora certa de 'aparecer'. Incrível é ver a performance de Denzel Wasshington, principalmente nas cenas com o Liev Schreiber (outro inspirado), onde praticamente desaparece em cena. Sua aparência quase sempre contida ajuda e muito no resultado final (os momentos em que ele "estoura" acabam por injetar mais tensão ao longa). Meryl Streep, como a vilã-megera-política-sem-limites-malígna, já conquista a antipatia do espectador em seu primeiro momento, e diz ao que veio. Sua performance beira o brega proposital (aquele estilo "Hahahahahahawwwww! Sou vilã! Isso é novela das oito! Me odeiem!"), mas ainda sobra espaço para cenas pra lá de humanas (nunca arredando o pé da peculiaridade - ex: cena no banheiro Streep/Schreiber). Ainda sobram mini-performances a se destacar (como o ótimo Jeffrey Wright, ou a gracinha Kimberly Elise, que funciona sempre, sobrevivendo a qualquer reviravolta) e mini-performances a se... ah, sei lá (Jon Voight e Tom Levine, "Os McGuffins").
As vezes é ótimo ver um remake elogiado sem precisar ter visto a primeira versão. Mas creio que, neste caso em especial, o contrário não faria muita diferença. Top 10 2004. Dificilmente vai sair daí (mesmo se entrar um Antes Do Pôr-Do-Sol no caminho... Inclusive, tá na hora de estrear o filme do Richard Linklater em mais salas, palhaçada). E anotando: VER VERSÃO COM FRANK SINATRA.
Má Educação (La Mala Educación, de Pedro Almodovar - Espanha/2004)
Nº1: eu só conheço a fase mais comportada... ahn... dramática de Almodovar, aquela de A Flor Do Meu Segredo, de Fale Com Ela. Ainda preciso ver filmes como A Lei Do Desejo e Matador. Portanto não espere comentários do tipo "o encontro das duas fases do cinema de Almodovar, em seu filme mais pessoal...", nem mesmo algo como "só ele para fazer um thriller GT mesmo!". No final da sessão, só me vinham duas palavras à mente: ego e Hitchcock.
Vai da abertura, de trilha sonora intensa, à cena final "homenagem a mim" do Pedrito. Isso, isso e isso. As vezes Hitch, Hitch, ego; as vezes Ego, Ego, hitch. Quando o ego ganha E maiúscula, é quando o longa se compromete. A minha conclusão do filme não fica muito no aspecto bacaninha/apaixonado/passivo/alter de Enrique Goded (interpretado à altura - e, caso você que lê isto aqui ainda não tenha entendido, não quer dizer muito - por Fele Martínez), e sim em toda a trama desencadeada pelo personagem de Gael Garcia Bernal, desde sua primeira aparição (na linha temporal do filme). Isso é o que garante qualquer interesse do espectador em Enrique. Por isso o saldo positivo; o Hitch, Hitch, ego prevalecendo. Se nas poucas vezes em que a atenção do diretor se volta 100% para Enrique tudo parece tão monótono e "Eu te amo Almodovar; Ass: Almodovar", em grande parte do filme temos o personagem de Gael trazendo humanidade para o filme (seja da forma mais pura, da mais controversa, ou da mais obscura), em forma de thriller. Com ele, vêm todos os personagens envolvidos, e só no final realmente sabemos quem está dentro do filme dentro do filme, ou só dentro do filme. Aliás, está indagação nunca ganhou tanta importância em um filme como neste. Pelo menos para quem vos escreve (e, pode crer, o LFM precisa ver mais filmes). Talvez por tal indagação carregar tantas outras dentro do filme, não ter tanta simplicidade, não estar ali por estar. E aí está o toque especial de Almodovar.
É mais do que redundante reafirmar: Gael Garcia Bernal é o dono do filme. Até Almodovar assume sua inegável presença em cena e até afirma a facilidade de lidar com a câmera em função dele. Se bem que não encontrei a razão para dar tanto valor à sua estatura. Ok, talvez nas cenas da travesti Zahara, mas nem tanto. Tem mais a ver com a performance do ator do que qualquer coisa, o próprio filme bate nesta tecla. De qualquer forma, a melhor interpretação de Bernal em sua carreira. Supera fácil a de Che Guevara (até porque o filme do Salles é mesmo de Rodrigo De La Serna). E, para concluir, rapidamente: Só o Almodovar para fazer um thriller GT mesmo! Quer dizer... É, acho que é isso mesmo. E anotando: VER MAIS FILMES DO MODÔVA.
Ahn?! Tinha que escrever sobre Chamas Da Vingança e A Supremacia Bourne? Putz, sei lá... O filme do Tony Scott é uma insuportável apologia à violência e um insuportável exercício de estilo. A cena da rave (a boate explodindo) é a mais grotesca do ano. Dakota Flanning faz a experiência não ser uma merda completa. O filme do Paul Greengrass é tão Nota 6 quanto o antecessor (A Identidade Bourne, duh), por motivos contrários. Se a ação é melhor (a perseguição final é a melhor cena de ação do ano), a trama se assume furada de vez. Roteiristas de The Bourne Supremacy, vão ter uma aulinha com os roteiristas do filme de Jonathan Demme.
E, fala sério, estou sem ânimo para ver no cinema as prováveis bombas que podem surpreender, como Celular, Taxi, Os Esquecidos, Com A Bola Toda, O Exorcísta 4... ou 0, etc... Quem sabe rola um ainda mais duvidoso, do tipo Mar Aberto, para tirar o atraso.
Escrito por LFM às 20h12
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