Uma Obra-Prima (...)
Kill Bill - Volume 2 (idem, de Quentin Tarantino - EUA/2004)
"Ok. That's my way, all right? I do a four-hour action epic and end on a 40-minute dialogue scene. Hopefully my dialogue is like an action scene." (Quentin Tarantino)
Bem, talvez não o seja para alguém que saia chorando compulsivamente de uma sessão de Chamas Da Vingança.
Para quem ama o cinema, principalmente o cinema do Taranta, é. Diálogos afiados e personagens marcantes sempre foram um fator sólido em sua filmografia. Mas suas influências sempre o fizeram ser muito mais que isso. Afinal, seus diretores preferidos são mestres em cenas de ação. Muitas vezes sem um grande roteiro em mãos. É delicioso ver o quanto o seu amor pelo cinema (principalmente dos anos 70) rende nostalgicas e homenageantes cenas, sem deixarem de ser únicas. Em Kill Bill - Volume 2, uma explícita citação à Ninho De Cobras (com Kirk Douglas e Henry Fonda), na última cena com o Budd (Michael Madsen), se transforma numa cena clássica, aliada aos diálogos proferidos pela (ressuscitada) Daryl Hannah e sua Elle Driver. E este é apenas um exemplo, entre muitos.
Hei de concordar com o resto do mundo, porém. Taranta fez deste filme uma experiência ainda mais intensa que Kill Bill - Volume 1, já que acabou atendendo à proposta da Miramax de dividir um filme de quatro horas em duas partes. Fez a idéia do estúdio não parecer estúpida. E se o vínculo entre os dois filmes está mais do que presente, até porque o próprio diretor os vê como apenas um filme, Tarantino brinca como nunca com as nossas expectativas e investe mais em elementos românticos/dramáticos (como já fez, e muito bem, em Jackie Brown, mas desta vez com mais profundidade), onde a violência sem limites já era marca registrada. Tudo tende a ser mais ambíguo, muitas vezes até bem menos cômico. No Volume 1, tinhamos na cena inicial uma atmosfera de humor negro, e a palavra "sadismo" parecia vir da boca do diretor. Neste, começamos com a mesma cena num ritmo mais frenético, com uma trilha sonora impelindo a tensão, com ênfase total na personagem de Uma Thurman (Beatrix Kiddo? [...] Presente!), que em seguida dá sua declaração, e nos introduz seu drama à fundo (a chacina em pleno ensaio de casamento). É difícil não levá-la a sério.
Seguem-se influências hitchcockianas (andando de mãos dadas com as de Brian De Palma, como não poderia deixar de ser), não superando/ocultando os elementos western/kung-fu/gore, mas os intensificando (a violência não é desmedida como no Volume 1, mas é bem mais impactante). A cena do caixão de Paula Schultz é de deixar qualquer cinéfilo que se preze de cabelo em pé. Tê-la visto numa ótima sala de cinema é um fato para se contar aos amigos, aos pais, aos filhos, aos netos, aos sobrinhos... cinéfilos. A última parte da cena com a Daryl Hannah (luta entre Elle e Beatrix) nos deixa uma sensação ainda mais forte do que a que temos quando assistimos o último instante de Vic Vega/Mr. Blonde (Michael Madsen) em Cães de Aluguel, pela primeira vez. E a revisão não diminui o impacto. O grande duelo prometido, seguido de um anti-climax de cair o queixo e de um final emocionante, são apropriadíssimos. E não menos surpreendentes. Já o respeito e a admiração à cultura oriental e os verdadeiros toques de humor estão para Pai Mei (Chia Hui Liu) na segunda parte, como estavam para Hattori Hanzo (Sonny Chiba) na primeira parte. E os HQ's também ganham espaço aqui, ou alguém esqueceu da ótima analise do Super-Homem feita por Bill, que rende até uma comparação com a Beatrix?
Para reforçar o trabalho do Taranta: 1- Uma Thurman. Ela encarna, com perfeição, uma Beatrix Kiddo unindo o racional ao emocional. Ela continua com sede de vingança, mas recupera o equilíbrio que não encontrava no volume anterior. Quanto mais perigosa sua missão, mais apurada sua técnica. Aqui, finalmente, passamos a conhecer por inteiro a verdadeira Beatrix. 2- O resto do elenco. Especialmente David Carradine e Daryl Hannah, com as melhores falas do filme. 3- A fotografia. Desta vez mais em função do filme, do que um exercício de estilo ou uma referência, apesar das cenas com o Pai Mei (ou as cenas em que ele é citado) serem exceções. 4- A trilha sonora. Não só a selecionada pelo Taranta (que não economizou no Ennio), como também a trilha original, que desta vez tem o dedo do Robert Rodriguez (em seu estúdio de cinema em casa... me dói o coração lembrar que o cara monta o filme e compõe a trilha sonora dele sem sair de sua cadeira giratória em sua pequena sala, cheia de equipamentos de alta tecnologia). Aliás, é óbvio que foi o Rodriguez que apresentou ao Taranta canções como Malagueña Salerosa, que é trilha de um dos créditos ao elenco mais emocionantes da história do cinema. Só.
Com seu grande épico, Taranta nos prova definitivamente que, mais do que ter um estilo inconfundível, pode constrir um universo próprio para seus filmes, e dar vida a personagens humanos e/ou representativos, não apenas pretextos para uma função narrativa ou ideal que um diretor possa ter com o seu material. O que esperar, então, de Inglorious Bastards? Grandes personagens? Narrativa linear? Romance? Ou muito humor negro, diálogos impiedosos e, acima de tudo, muito sangue? Há um mês atrás, eu apostaria na última opção. Hoje acredito que Taranta pode fazer algo com todas as opções, mas também não sei ao certo. Que a nossa espera por seu lançamento, portanto, seja um suspense digno de Ennio Morricone e seu A Silhouette Of Doom.
"I don't ask everything from every movie. I ask what I'm supposed to get from each movie, and if I get something more, great." (Quentin Tarantino)
Uma boa frase para se iniciar uma discussão sobre os dois outros filmes a serem comentados por mim aqui. Em breve, em sequência, em ordem decrescente de qualidade, A Supremacia Bourne e Chamas Da Vingança.
Escrito por LFM às 23h45
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Vingança, Volta, Voto... e outras coisas que não começam com V.
Já teve pré-estréia de Kill Bill 2 marcada em Santos para o último Sábado, apesar de muito tarde (quase meia-noite), o que indica que o filme irá aparecer por aqui na próxima Sexta. A estréia de Antes Do Pôr-Do-Sol ainda é uma incognita. Juro que, se os dois estrearem Sexta, os verei no mesmo dia sem titubear. E já que não tenho o Festival do Rio para esbaldar-me em, fica para mim um festival de filmes franceses que o Cine Arte Posto 4 irá oferecer este mês. Minha chance de finalmente estrear Robert Bresson, que tanto endeusam.
Este mês, aliás, já comecei com dois filmões (daqueles de entrar em listas e tudo) que demorei para ver: A Conversação e Albergue Espanhol. Nada a ver um com o outro, a não ser, claro, no que se refere à imensa capacidade de Francis Ford Coppola e Cédric Klapisch em fazer o tempo de duração de seus filmes passar voando. Coppola com seu suspense à la Hitch (e que me desculpem os fãs incondicionais de Vertigo, que é um filmão impossível de se esquecer, importante como poucos para o cinema, por muitos de seus elementos, aproveitados e reaproveitados e re-reaproveitados, mas bocejei umas duas vezes na metade deste; no mesmo quesito The Conversation não falha, pelo menos na primeira vez), e Klapisch com seu incrível retrato do jovem e sua angústia ao reprimir seus sonhos e sua espontaneidade para ingressar na vida adulta (e, quase sempre, não da maneira que realmente se deseja), além de uma bela mensagem pró-globalização e anti-xenofobia. Meus familiares deviam ver este filme. A tão comentada interação dos atores de diversas nacionalidades e suas diversas línguas é uma lição de direção de elenco aos diretores mais medíocres ou pretensiosos, que pensam que é só arranjar carinhas bonitinhas ou grandes nomes para conseguirem cativar ao público, mas sem chegarem nem perto de tal nível de verossimilhança, atingido por Klapisch. Principalmente em filmes direcionados a nós, jovens. São atores misturando diálogos de várias línguas sem parar, durante toda a duração. No último Sábado (antes tarde do que nunca) vi Amores Brutos. Outro exemplo. Será que vai ser assim durante todo o mês? Porque se for, great.
Enfim, é isto.
Ah! Neste Domingo, pela primeira vez, fiz a minha parte. Dei o meu voto. Mal consigo me conter. Portanto, presenteio a mim e a quem lê este blog com uma bizarra associação de imagens, logo abaixo. Inté.












Escrito por LFM às 16h06
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