Qualquer coisa que possa me interessar...


Mais... e sem fotos, pois limite de caracteres é o que há.

Respiro (idem, de Emanuele Crialese - 2002) - Durante a sessão deste, é impossível não se lembrar de um filme italiano da época do neo-realismo que se tenha visto. No meu caso, lembro de A Terra Treme. A obra-prima de Visconti, porém, pouco tinha o objetivo de mostrar a beleza da Sicília como um dos personagens centrais. Filmes mais recentes, como Mediterrâneo, têm mais preocupação com este aspecto. Mas se o filme de Gabriele Salvatores mantinha uma certa distância em relação ao humilde povo das ilhas deste Mar, o longa de Emanuele Crialese não só nos presenteia com tanta beleza natural, como faz questão de aproximar-se ainda mais da cultura e do isolacionismo de lá. E os analisa sem qualquer influência política de um, ou cínica de outro. Para contrastar com a vida simples e cheia de regras da tal ilha (Lampedusa), com um povo cheio de rancores e apego à religião, é posta em cena a alma do filme, a personagem-lenda: Grazia, de Valéria Golino. Sua espontaneidade estranha qualquer pessoa naquele lugar, inclusive sua família. Mas nem os conflitos com o ciumento e conservador marido (que rendem idéias malucas de levá-la à cidade para ser "tratada") a impedem de tomar suas atitudes, à sua maneira. Para evitar a fragilização ainda maior de seu espírito, Grazia se esconde de seus familiares, com a ajuda de um deles, em especial (sem mais, não quero estragar a sessão de ninguém), o que rende uma reação impressionante da surpesticiosa população. Com uma fotografia correta (e ser correta é o bastante, num set como aquele) e uma das melhores interpretações femininas em muitos anos (Golino, sem mais comentários, perfeita), Respiro coleta as influências mais marcantes do cinema italiano e joga no liquidificador. Um gosto a mais disso, um gosto a menos daquilo. Mas a essência está alí, e é de ótima qualidade. Ei, até que o gosto a mais disso e o gosto a menos daquilo deram uma melhorada no resultado...

Alien Vs. Predador (Alien Vs. Predator, de Paul W.S. Anderson - 2004) - Um dos melhores filmes de comédia da temporada não tinha tal pretensão. Mas e de ser ruim? Parece que o diretor gosta de alternar filmes porcos e (pior!) pretensiosos com filmes surpreendentemente bacanas, quando o diretor larga o ridículo tique de grandiosidade e trabalha bem com o pouco que tem na mão (Resident Evil - Sabe o que é, bacana; O Soldado Do Futuro - Hã? Sem comentários; O Engima Do Horizonte - Poucos deram valor à este, eu fui um deles; Mortal Combat - Hã? Sem comentários; Shopping - Indie que ainda não vi). Neste filme, que nem a idéia do game quis aproveitar, ele só não erra na atriz que escolhe para personagem principal (leia-se: sobrevivente, óbvio), e nas cenas com os "seres" do título em que ele opta por utilizar efeitos digitais. Isso mesmo. Quem diria. Fazer o quê se ele filma mal pra burro as cenas de ação? Claro que, para o filme sobreviver, ele teria de inventar alguma besteira do tipo: "Ok, agora estes aqui serão os bonzinhos, os aliados, os inimigos dos meus inimigos, meus amigos". E danem-se os filmes das séries cuja inspiração inspirada inspiratória inspiradíssima ajudou a gerar este pedaço de cocô em Dolby Digital. Putz, esqueci de ressaltar? Até o som fica devendo...

A Vila (The Village, de M. Night Shyamalan - 2004) - Hum... Ando pensando muito neste daqui desde que o vi, no início do mês. Como um ou outro que vi no cinema este ano. Mas como assim, se nem gostei tanto? Será que estou reparando mais nele do que havia reparado antes? Ainda não o revi, e não sei se irei revê-lo no cinema. Mas acho que fui injusto. No entanto cheguei a fazer um comentário nem tão elogioso, no Fórum Adoro Cinema. Ei-lo: "O problema está provavelmente na concepção do roteiro. Nem culpo a campanha de marketing, culpo o diretor/roteirista mesmo. Ele não desiste de investir no suspense até a última gota, mesmo com uma primeira hora tão agradável, que investe em momentos relativamente tensos na mesma intensidade que explora o lado humano de vários personagens naquela vila (o que justifica totalmente o final). Depois da "grande revelação" (o Shy faz questão de deixá-la grandiosa, o que fode mais o filme), o filme larga a porra do suspense e fica belo demais. Mas a sensação da quebra de expectativas estraga tudo. Shy fez sua marca registrada prejudicar muito "A Vila". Os adoradores do longa dizem que a revisão ajuda muito neste ponto. Um dia desses revejo. Mas por enquanto..." Umas reconsiderações que fiz depois deste comentário: 1- Shy realmente insiste no suspense até a última gota, mas sempre à favor da proposta real do filme, de sua discussão. De sua tão comentada 'resposta espontânea/não-proposital à Dogville'; 2- A revelação não acontece de forma grandisosa. Ela acontece desde o seu início, e desta forma segue em cada momento do filme, sutilmente, dominando pouco a pouco nossos inconscientes com o que o filme realmente tem a mostrar. Na metade, afeta definitivamente nossos conscientes com o diálogo aberto entre pai e filha (William Hurt e a estreante-estonteante Bryce Dallas Howard), e depois cria mais tensão, mesmo com a revelação dada como certa, o que acaba preservando a sobrevivência da vila e justificando todo o filme. Com uma boa reflexão tudo se demostrou sempre necessário. Necessário mesmo é uma revisão. Preciso analisar melhor este provável melhor filme do Shy, que cheguei a considerar o pior, mas que não sai da minha cabeça. Uma coisa é certa: Shy vai ter que batalhar muito para nos surprender da próxima vez. Estamos começando a entender o que é o cinema do Shy. E chega de Shy.

Saved! (idem, de Brian Danelly - 2004) - Acabei vendo em casa, já que não posso ir ao Rio para vê-lo. Já tinha visto o trailer e achado a proposta interessante. E o que temos é uma boa mensagem em um filme divertido. Não se justifica o furor da Liga Católica e de outros grupos religiosos extremistas, sequer o barulho em volta do produtor estreante Michael Stipe e sua Single Cell Pictures. A assumida função de crítica ao moralismo sem medida e ao fanatismo que cega o homem está bem embalado ao gênero, embora às vezes o humor negro dê espaço ao estilo comum de comédia romântica, que toma um belo tempo do filme. Com considerável ajuda do elenco jovem/adulto ainda consegue resultar bonito, nunca forçado. Até de Macaulay Culkin, o inóquo, o diretor consegue tirar uma interpretação decente. Mandy Moore é boa atriz, não sabia disso (não vi Um Amor Para Recordar, mas espero tranquilo uma exibição em um canal de TV disponível em casa). Jena Malone sim, eu sabia. Aliás, escolheram perfeitamente Mary-Louise Parker para interpretar a mãe de sua personagem no filme. As duas são assustadoramente parecidas, até na presença em cena. Patrick Fugit faz sua parte, mas mostra que aquele jornalista do filme de Cameron Crowe deverá ser uma bela de uma exceção em sua carreira. Participações bacanas de Heather Matarazzo (aquela que sempre está lá, e nunca a reparam), Martin Donovan e Chad Faust. O relativo sucesso nos cinemas americanos se justifica. É um filme bastante verdadeiro. Espero que ganhe uma distribuição boa aqui e, se possível, um nome em português tão irônico quanto o original.

Ah! Também vi O Enviado, mas este é ruim demais. Por enquanto é só. Até um dia.



Escrito por LFM às 20h03
[ ] [ envie esta mensagem ]


E não é que, quase um mês depois, eu voltei?

Durante esse tempo todo sem PC disponível, pensei muito sobre a chatice que estava se tornando fazer isso aqui - quanto mais ler. Veio o inevitável "Então, por que ter blog?". Cheguei a duas conclusões:

1 - Não me obrigar a redigir textos pretenciosos. Quando eu achar que posso fazer um texto bacana sobre certo filme que vi, o faço. Mas quando siplesmente não tiver tanto assim a comentar, com grandes opiniões, analogias e afins, simplesmente comento algumas peculiaridades de vários filmes vistos, como em um screening-log. Sendo eu mesmo, evito constrangimentos desnecessários - e todos devem saber como isso acontece no mundo virtual...

2 - Brincar de dar notinhas para filmes é legal, mas para mim se mostra cada vez mais desnecessário, principalmente quando já me desgastei todo passando para a escrita minha opinião sobre determinado filme. Exceto os posts com listas de filmes vistos no mês, e fora daqui (aka, Fórum Adoro Cinema), porque ninguém é de ferro, chega dessa brincadeira.

Para (re)começar, alguns filmes recentes que andei vendo na telona, e um ainda inédito no Brasil que, não resisti, vi no computador:

Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças
(Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, de Michael Gondry - 2004)

Ok, o óbvio: Michael Gondry é, pelo menos, um dos dois melhores diretores de video-clipes da história. Nem preciso comprovar isto vendo todos os clipes que existem ou sequer de sua videografia (a maioria dos clipes da Björk que ele dirigiu ainda não vi), mas tenho Music Sounds Better With You do Stardust, Let Forever Be do Chemical Brothers e Like a Rolling Stone dos Rolling Stones entre meus clipes preferidos - além de, claro, ter visto e revisto as obras-primas que são Everlong e os clipes do White Stripes dirigidos por ele. No cinema, porém, ele não me convenceu completamente. Se em Natureza Quase Humana (que também vi pela primeira vez este mês), ele tenta disfarçar o provável pior roteiro de Charlie Kaufman até hoje alternando geniais sequências surreais com um tipo de comédia que, definitivamente, não combinou com seu estilo (embora neste ou naquele momentos o elenco se esforce e garanta uns sorrisinhos), neste se vê obrigado a lidar com o melhor que Kaufman pode oferecer, principalmente depois de praticamente assumir, com Adaptação, que ele apenas recicla clichês que ele tanto repara e adora em filmes, e os dá uma roupagem moderna e/ou um toque pessoal. Recicla Gondry, então, muito de sua videografia e mesmo assim é dominado por todo e qualquer diálogo (Made By Kaufman) que aparece em seguida. Não atrapalha (não há uma cena que não seja bela de se ver e rever), até porque tudo está bem mais sutil do que em seu filme anterior (mérito do Kaufman?), mas é sempre ofuscado pela imaginação do famoso roteirista. Quem, ao citar este longa, terá como uma perdurável lembrança um toque surreal de Gondry em alguma cena (claro que não conta a mais do que correta fotografia, que é dirigida por Ellen Kuras, que ja trabalhou com Spike Lee e Jim Jamusrch)? Ainda mais com o melhor elenco possível de se escolher nos EUA atualmente. Tudo seria mais memorável se houvesse mais do visual, mas não é o que assistimos. Mas claro que não se trata de um produto totalmente esquecível. Penso neste exato momento, por exemplo, na cena final de Jim Carrey e Kate Winslet juntos. Duas das melhores interpretações do ano.

Colateral
(Collateral, de Michael Mann - 2004)

Michael Mann dá mais do que certo em filmes com ação e muita tensão. Está mais do que comprovado. Até porque o diretor os trata como algo mais que "filmes com ação e muita tensão". Explora como ninguém os personagens de seus filmes (o que é reforçado pela sua habilidade de dirigir o elenco como poucos, ao menos em sua terra natal). Neste, o ambiente em que a trama se desenvolve (a Los Angeles escolhida por Mann) é um dos personagens principais e ganha um baita destaque, não somente do Mann, mas também do roteirista Stuart Beattie (que co-roteirizou Piratas Do Caribe), adaptando bem uma história que usa a cidade de cabo a rabo e ainda garantindo ótimos diálogos em vários os momentos, que até interagem (da maneira que só o Mann consegue) com o apelo visual de Mann, aprimorando a obra (a última cena do filme é prova indiscutível disto). Não sei por quê tanta gente está reclamando do filme, criticando mais do que tudo o roteiro, cujo único "problema" a ser enfatizado é a estrutura bem comum no gênero, no que se refere à trama policial/suspense em si. Pois Mann aproveitou a oportunidade de revitalizar esta estrutura e nos prende até o último instante como se tivessemos vendo o filme mais original que existe. Só o título de "melhor clímax do ano" está quase garantido. Jamie Foxx rouba a cena, em quase todos os momentos. Talvez fosse essa a intenção do Mann. Até o clímax, o personagem de Tom Cruise nunca ganha qualquer tendência em sua personalidade, para qualquer "lado", até em cenas de descontrole maior de seus atos, ou de suas revelações ambíguas sobre sua vida, o que garante cenas pós-clímax das mais tensas até a última cena, em que finalmente tal personagem não só mostra sinceridade, mas tem um desfecho que nos faz descobrir que havia algo de sincero antes que ainda não haviamos percebido - L.A., a cidade que ele mais despreza e a insensibilidade dos anônimos que vivem num lugar como esse, da qual ele seria vitima.

Filme De Amor, de Júlio Bressane
(idem, de Júlio Bressane - 2003)

Primeiro do Bressane que vejo. Na verdade o vi sem imaginar muito o que teria pela frente, ou pelo menos tentar, já que tudo é tão inusitado e a experiência visual presente neste filme é surpreendente a nível de cinema mundial. Sim, sim - tudo é muito belo. A alternância da fotografia entre o colorido e não-colorido (A-ha! U-hu! Walter Carvalho é nosso!), dependendo do nível de delírio, contentamento/descontentamento dos personagens ou do tom de homenagem das cenas e a transposição das inspirações do diretor no mito das três graças e em pintores figurativos o fazem uma obra única. Sua ambição de mostrar três humildes moradores do centro do Rio De Janeiro como pessoas cultas explorando seus desejos a fim de entenderem o amor e sentirem-no funciona bem em muitos momentos (e Bressane não tem medo de explorar os corpos dos personagens também), mas, com exceção da parte final do filme, pode dar uma impressão generalizada de que não acompanhamos identidades, apenas os desejos dos sexos - o que não pode definir tão radicalmente um sentimento tão complexo. Demasiada pretensão. Walter Carvalho já declarou em entrevista que "Bressane vê no cinema coisas que ninguém vê". É, o nome do diretor impregnado ao nome do filme está mais do que justificado. Mas creio que posso ou não posso "ver" o que ele vê - e para a palavra "posso" fica a ambiguidade. Um baita filme, ainda sim.


Em breve: outro(s) post(s) com os outros filmes recentes vistos neste período - Respiro, AVP, A Vila e Saved!, entre outros. Limite de caracteres é o que há.



Escrito por LFM às 19h47
[ ] [ envie esta mensagem ]

 
Histórico
Ver mensagens anteriores



Se tiver tempo...
 2JOVEM
 Abacaxi Atômico
 Adorocinema
 Anotações de um cinéfilo
 Baú de filmes
 Blogcitario
 Box Office Report
 Caminho De Mula
 Cine Majestic
 Cinéfilos Online
 Cinéfilos Off-line
 Cinema cuspido e escarrado
 Cinema em Cena
 Cineminha
 Cultura latina
 Curta o Curta
 Diário de um cinéfilo
 Egolog
 Era Uma Vez Na Paraíba
 ETC
 Falha Nossa
 Filmes 04
 Filmes do Chico
 Filmes gls ou quase
 Fórum - Adoro Cinema
 Free as a Weird
 Hattori Hanzo
 Liga dos Blogues Cinematográficos
 Los Olvidados
 Movies & More
 O Nada. O Limbo.
 O Novo Blog da Zona Morta
 Orionlog
 Os intocáveis
 Porta Curtas
 Punch-Drunk Movies
 Reduto Do Comodoro
 Repete que eu não ouvi direito
 ScoreTrack Network
 Screening Log
 Shmock
 Tempos Modernos
 The Internet Movie Database (IMDb)
 The.way.things.are
 Tiago Superoito redux
 TV Magazine
 Vagabundisse




interessado(s) on-line